Minha vida é movimento.



Dança. Compasso.



Canto.




Minha vida é passo.



Caminho, escuto, recordo.



Encontro e decanto.



Conflito, reflito e traço.



Minha vida é campo



onde lanço, arado.



Onde laço, espanto!



Onde tanto, escasso.



Onde espaço, encanto.



Onde espanto, abraço.







quarta-feira, 4 de abril de 2012

O Leite Espiritual


Maria Beatriz Versiani

“Desejai ardentemente, como meninos recém nascidos, o puro leite espiritual, para por ele crescerdes para a salvação, agora que já provastes que o Senhor é bom.” (1 Pe 2:2-3)

Sento-me diante do texto perplexa com a poesia que o Espírito Santo plantou no coração de Pedro, um rude pescador. Que metáfora! Vejo os bebês arquivados em minha memória e seu choro forte que só cessa no peito da mãe.

Com que ardor um bebezinho clama pelo leite! É questão de sobrevivência! Sem o leite, há desidratação, queda de temperatura, não há crescimento. Para o bebê, o leite é o alimento completo. Até mesmo uma mãe desnutrida guardará o melhor de seus nutrientes no leite do peito que oferece ao seu bebê.

Ao peito, o bebe encontra não somente o alimento, mas o sentido. A criança encontra na experiência de mamar o olhar da mãe sobre ela, olhar que vem carregado de significantes, que serão tomados na construção da identidade.

Podemos pensar então sobre o texto bíblico. Desejar ardentemente o leite espiritual conduz-nos ao encontro do sentido de quem verdadeiramente somos. O encontro com o leite espiritual é o encontro com a Palavra, essa que nos dá a identidade: sermos filhos de Deus.

Desejar ardentemente o leite espiritual significa não abrir mão daquilo que me é primordial. O alimento garante a sobrevivência. Não posso viver sem Ele.

Talvez por isso o Senhor Jesus tenha afirmado: “ Em verdade vos digo, que se não vos converterdes e não vos tornardes como crianças, de modo algum entrareis no reino dos céus.” (Mt 17:3)

Preciso desejá-Lo ardentemente. Com a urgência de um bebê faminto. Com a necessidade de um bebê desamparado. Ao acordar, chorar por Ele, por Sua presença, pelo alimento que me dá. E então, vindo Ele, saciar-me, recebendo e fruindo de tudo aquilo que Ele tem para mim.

“Sacia-nos de manhã com o teu constante amor, para que nos regozijemos, e nos alegremos todos os nossos dias.
Alegra-nos pelos dias que nos afligiste, e pelos anos em que vimos o mal. Apareça a tua obra aos teus servos, e a tua glória sobre seus filhos.
Seja sobre nós a graça do Senhor, nosso Deus; confirma sobre nós a obra das nossas mãos. Sim, confirma sobre nós a obra das nossas mãos.” (Sl 90:14-17)

quarta-feira, 28 de março de 2012

Sobre a negação da castração e a disposição perversa da teologia da prosperidade




Sobre a Negação da Castração e a Disposição Perversa da Teologia da Prosperidade

Maria Beatriz Versiani



Psicanálise e teologia não se misturam! A frase é dita com convicção tanto por psicanalistas como por teólogos. Tenho, contudo, abertas as possibilidades de escuta para um diálogo que, há alguns anos, vem teimando em se fazer no espaço entre estes dois saberes. O primeiro, do homem e sua singular subjetividade, e, o segundo, do homem e sua singular e subjetiva condição de ser espiritual, transcendente.

A partir da brecha que se abre entre estes dois campos, proponho pensar sobre o contemporâneo desmentido que a teologia da prosperidade opera para negar a castração.

Somos seres insaciáveis. À falta-a-ser, estruturante do sujeito do desejo, respondemos de maneiras diversas e particulares. Mas trata-se aqui mais de analisar-se um discurso, que, pretendendo fazer-se cristão, sai como mentiroso na medida em que desmente a falta.

Somos faltosos. Desde o Éden. Lá, no jardim-útero, éramos completos. Não experimentávamos a falta, visto que não havia separação. O que instaura a falta é justamente aquilo que separa, que se interpõe numa relação simbiótica, o que se opõe ao emaranhado que não permite saber até onde sou eu, e até onde o outro.

No Éden, literalmente, caímos. A expulsão do jardim é chamada Queda de Adão. Queda do primeiro homem. Experiência que inaugura a angústia da falta a ser. Após a queda, a maldição da incompletude: “E à mulher disse: Multiplicarei grandemente a tua dor, e a tua concepção; com dor terás filhos; e o teu desejo será para o teu marido, e ele te dominará. E a Adão disse: Porquanto deste ouvidos à voz de tua mulher, e comeste da árvore de que te ordenei dizendo: não comerás dela: maldita é a terra por causa de ti, com dor comerás dela por toda a tua vida.” (Gn 3:16-17)

“O Senhor Deus, pois, o lançou fora do jardim do Éden, para lavrar a terra de que fora tomado. E havendo lançado fora o homem, pôs querubins ao oriente do jardim do Éden, e uma espada inflamada que andava ao redor, para guardar o caminho da árvore da vida.” (Gn 3:23-24)

A condição de completude foi interditada. Não, ao primeiro homem não seria concedido tudo. Era preciso, mesmo ali no jardim, lidar com a falta. De uma árvore ele não poderia comer. Se o fizesse, morreria. Morreu para a ilusão de ser completo.

Pois bem. O que dizer então, de um “evangelho” que prega a completude, a totalidade neste mundo? O que dizer de um “evangelho” que alardeia sobre não sermos frustrados? Ah, sim, somos não somente vencedores, mas mais que vencedores. O versículo existe, no contexto. O texto leva-me a crer que somos sim, mais que vencedores, sobre a nossa própria natureza, exageradamente humana. Que em Cristo, importa que meu ego diminua para que Ele cresça. E o poder Dele, que se aperfeiçoa na minha fraqueza, me fará capaz de suportar toda a castração que me estiver imposta, porque humana. Importa que cada dia seja menos a minha vontade, e mais a vontade de Deus, a governar minha vida.

Porque a minha vontade é da ordem da demanda, e seu destino é deslizar por uma longa cadeia de substituições. Se eu queria um marido, agora já não me serve mais! Se eu queria uma casa, agora está muito pequena, ou demasiado grande. Se eu queria um carro, está obsoleto, ou gasta muito. Quem sabe uma bicicleta?

Do púlpito ouço anunciarem: imagine o que você quer ser, fotografe-se vestido disso, e você o será. Alguma semelhança com alguém vestir-se de enfermeira para uma noite de sexo? O fetiche é um desmentido. Quer negar a castração.

Mas o evangelho de Cristo, esse não nega. Não dá margem para dúvidas. Estreito é o caminho que conduz à salvação... Entrai pela porta estreita... o Filho do Homem não tem onde reclinar a cabeça...
Então [Jesus] chamou a multidão e os discípulos e disse: "Se alguém quiser acompanhar-me, negue-se a si mesmo, tome a sua cruz e siga-me. Pois quem quiser salvar a sua vida, a perderá; mas quem perder a sua vida por minha causa e pelo evangelho, a salvará. Pois, que adianta ao homem ganhar o mundo inteiro e perder a sua alma? (Mc 8:34-36)

O evangelho de Cristo, o Filho do Homem, o Verbo Encarnado, diz que é preciso perder, para então ganhar. Mas perder o que? O seu próprio ego. Negue-se a si mesmo. Negue-se às suas vontades, negue-se às suas demandas.Negue-se à sua mania de grandeza. Negue-se ao seu desejo de fazer crescer o seu nome mais do que o Nome Dele. Tome a sua cruz, tome a sua dor, tome a sua falta, tome as suas frustrações, tome a sua castração. E, então, siga-Me.

A esta altura,caro leitor, se você tiver chegado até aqui, convido-o a uma leitura complementar, a Carta de Judas, irmão de Tiago. Ele, servo de Jesus Cristo e seu irmão, adverte: “Pois alguns homens que não temem a Deus entraram no meio da nossa gente sem serem notados. Eles torcem a mensagem a respeito da graça do nosso Deus a fim de arranjar uma desculpa para sua vida imoral. E também rejeitam Jesus Cristo, o nosso único Mestre e Senhor. Há muito tempo que as Escrituras Sagradas anunciaram a condenação que eles já receberam.” (Jd 1:4)

E, ainda, João, em sua segunda carta: “Quem não fica com o ensinamento de Cristo, mas vai além dele, não tem Deus. Porém, quem fica com o ensinamento de Cristo, esse tem tanto o Pai como o Filho. Se alguém for até vocês e não levar o ensinamento de Cristo, não recebam essa pessoa na casa de vocês, nem lhe digam: “Que a paz esteja com você!” Pois quem deseja paz a esta pessoa é seu companheiro no mal que ela faz.” (2 Jo:9-10)

Sim, o Verbo se fez Carne. E Ele foi devastado, fez-se um nada, para que nEle fosse feita a vontade do Pai. Ele fez-se um nada, para que pudéssemos ser. Não ascendemos à condição de filhos pelo encontro do espermatozóide com o óvulo, como sugere o orador. Somente o alcançamos pelo encontro do Todo com o nada na cruz, onde, fazendo-se perdedor, venceu o mundo.

domingo, 18 de março de 2012

Celebrar a Tristeza



Maria Beatriz Versiani

“ A tristeza segundo Deus opera arrependimento para a salvação, o qual não traz pesar.” (2 Co 7:10a)

Talvez você que lê este artigo suponha que aquela que escreve esteja depressiva, fazendo, como os romanticos autores tuberculosos de outrora uma ode à tristeza. Não se trata disso. Absolutamente.

Do que pretendo tratar aqui é de uma natureza de tristeza que, conforme diz Paulo em sua segunda carta aos Coríntios, opera algo em nós. Algo que necessita ser operado.

Vivemos num tempo que rejeita a tristeza a todo custo. A oferta é de muita diversão, alienação e psicotrópicos. Anestesia para toda dor. As pesquisas mostram que o consumo de medicamentos tarja preta avança em passos largos, não havendo controle por parte dos órgãos responsáveis. Isso faz com que meninas de 16 anos estejam se entupindo de bromazepan e outros semelhantes... Isto faz com que crianças com diagnostico equivocado abusem de Ritalina, porque os pais não “agüentam” colocar limites nem se haver com a falta deles.

Nestes tempos, bom é o carnaval e a “alegria” (ou seria alegoria?) de quatro dias. Alegria que frequentemente se transforma em dor na quarta feira de cinzas... Lembro-me de uma marchinha de carnaval que aludia à quarta feira: “hoje não tem dança, não tem mais menina de trança, nem cheiro de lança no ar... hoje não tem frevo, tem gente que passa com medo na praça ninguém pra cantar”...

E na quarta feira de cinzas, dá-lhe mais umas pra rebater a ressaca moral e física.

Não, este texto não pretende ser moralista nem inconveniente. Ah, o mundo já tem tanta “desgraça” e ainda tem gente pra falar de tristeza?

Sim. Há um tipo de tristeza necessária para o crescimento. Há um tipo de luto que se deve fazer, e que a Bíblia nos ensina claramente que precisa acontecer de tempos em tempos na nossa caminhada.

Corremos o risco de seguirmos entorpecidos pela vida, até que tardiamente nos vejamos infrutíferos e sós. E isso pode nos levar a uma tristeza do mundo, essa que, ainda segundo Paulo na carta aos coríntios, opera a morte.

Há tristeza que nos leva à revisão de vida. Ao arrependimento. À conversão. O Evangelho de Mateus nos conta que Pedro, discípulo de Jesus, a quem tinha feito juras de fidelidade, no dia do julgamento sumário do Mestre, aquentava-se no pátio do lado de fora da casa de Caifás, o sumo sacerdote. Lá, em volta de uma fogueira, foi reconhecido como seguidor de Jesus. E o negou. Mais duas vezes foi reconhecido e, novamente, O negou.
Diz a Palavra: “Pedro lembrou-se da Palavra que Jesus lhe tinha dito: Antes que o galo cante, três vezes me negarás tu. E retirando-se dali, chorou amargamente.” (Mt 26: 69-75)

Sabemos que algum tempo depois, o Senhor Jesus Ressurreto, que havia em sua onisciência visto o arrependimento do seu discípulo, chamou-o numa praia à beira de uma fogueira onde assava peixes, e ali, levou-o a declarar o seu amor por Ele, por três vezes, para que a memória daquela tristeza fosse curada e se efetuasse a operação da cura e da conversão completa de Pedro. (Jo 21:15-17)

Pois bem. Assim aprendemos que precisamos discernir a tristeza segundo Deus da tristeza segundo o mundo. Seja bem vinda a tristeza que constrange o nosso coração (porque o amor de Cristo nos constrange), e que nos leva aos pés da cruz de Cristo. Seja bem vinda a tristeza que nos faz revisar nossas vidas, para buscarmos a verdade sobre nós. Seja bem vinda a tristeza que nos leva a reconhecer o nosso pecado, e buscarmos desesperadamente, não a anestesia passageira e alienante das drogas, da bebida, da sexualidade solta e desenfreada. Mas a cura definitiva para a nossa dor, que só podemos encontrar aos pés do Mestre.

Sim, seja bem vinda tristeza: “Cessou o gozo de nosso coração, converteu-se em lamentação a nossa dança. Caiu a coroa da nossa cabeça. Ai de nós, pois pecamos.”(Lm 5:15-16)

O poeta Vinícius de Moraes, em seu poema: Dia da Criação, nos remete ao lado B da “alegria” do sábado:

“Nesse momento há um casamento, porque hoje é sábado
Há um divórcio e um violamento,porque hoje é sábado
Há um homem rico que se mata, porque hoje é sábado
Há um incesto e uma regata, porque hoje é sábado
Há um espetáculo de gala, porque hoje é sábado
Há uma mulher que apanha e cala, porque hoje é sábado...”

Porque hoje é sábado, eu convido você a celebrar a vida que se renova pela via da tristeza. Foi numa via dolorosa que o Senhor Jesus, numa sexta-feira, se fez todo dor e sofrimento, para que nossas dores e sofrimento cessassem. Porque hoje é sábado, eu convido você a deixar de lado a bebida que entorpece a razão, a busca frenética por um parceiro, o convite sensual da televisão. Porque hoje é sábado, eu convido você a visitar o túmulo dAquele que morreu, para então descobrir que a cruz está vazia, a pedra do sepulcro foi removida, Ele Vive, Ele Ressuscitou!

A alegria Dele é eterna e constante. A alegria que vem Dele é para sempre. Vale a pena revisar, com tristeza, o caminho por onde andamos. Para então, nos alegrarmos, eternamente, com Ele.

“Regozijai-vos sempre; orai sem cessar; em tudo dai graças, pois esta é a vontade de Deus em Cristo Jesus para convosco. Não extingais o Espírito. Não desprezeis as profecias. Examinai tudo. Retende o bem. Abstende-vos de todo tipo de mal. O mesmo Deus de paz vos santifique completamente. E todo o vosso espírito, alma e corpo sejam plenamente conservados irrepreensíveis para a vinda de nosso Senhor Jesus Cristo. Fiel é o que vos chama, o qual também o fará.”(1 Ts 5:16-24)

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

Dá-me o Teu Coração






O meu coração está aos pés da Cruz de Cristo. Como num quadro impressionista, meu coração sangra arrancado a força do peito. Despojado, largado ali aos pés do Senhor Jesus.

Doeu muito fazê-lo. Arrancá-lo, veias e artérias, sem anestesia, sem torpor. No auge da minha lucidez, percebi que se não o fizesse morreria. Meu coração estava enfermo de amargura e rancor. De sonhos não vividos, de prazeres que não conquistei. De pessoas que não perdoei, de bens que não consegui. Meu coração estava cheio do vazio dos nãos que recebi da vida, e que me fizeram chorar e lamentar.

Porque quando recebo nãos da vida minha alma, qual criança, se fecha em frustração e queixumes. De repente se turvam meus olhos e já não sou capaz de ver todos os sims que me trouxeram até aqui. O sim da vida que vingou no ventre da minha mãe. O sim da saúde, o sim dos estudos, do casamento, de filhos. O sim dos amigos, o sim dos muitos trabalhos nos quais me envolvi.

Especialmente, como concha fechada, a minha alma se esquece do SIM que recebi naquela Cruz. Um SIM que não dependeu de quem eu era, do que havia feito, de como havia chegado ali. Um SIM dado todo por AMOR e por GRAÇA.

Por este SIM, e em troca dele, deposito agora aos pés do Senhor meu coração. Já não é mais meu, esse que palpita. Agora é Teu. Toma-o, e esvazia. Faz nele uma sangria, derrama dele toda dor. Transplanta ao meu peito o coração que tens, esse que é cheio de terna compaixão.

Dá-me a dignidade do Teu olhar, que contempla do alto do madeiro os que te rejeitaram, e os ama com amor sublime. Dá-me o Teu sangue por herança, e a visão das coisas futuras por misericórdia. Faz-me contemplar a vida a partir desse lugar, do madeiro em que estivestes, por um pouco de tempo, até que tudo fosse consumado.

Senhor, dá-me o Teu coração. Dá-me o Teu sobrenome. Dá-me a Vida abundante que há em Ti.

"Sonda-me ó Deus, e conhece o meu coração; prova-me e conhece os meus pensamentos. Vê se há em mim algum caminho mau, e guia-me pelo caminho eterno." (Sl 139: 23-24)

terça-feira, 3 de janeiro de 2012

quarta-feira, 30 de novembro de 2011

O TEMPO DE CHORAR




Como povo de Deus, nós freqüentemente rejeitamos a idéia da tristeza. Como se sentir tristeza, ou fracasso, ou decepção, fosse pecado. Esquecemos que o Senhor Deus nos criou com esse mundo de sentimentos dentro de nós, e a vontade Dele é sempre Boa, Perfeita e Agradável.

Então, não há razão para rejeitarmos tanto o deserto.

No deserto aprendemos.

No deserto nos encontramos com aquilo que existe de melhor e de pior em nós.

No deserto somos igualados ao outro, que, não importa se mais rico ou mais pobre, quando no deserto está sujeito às mesmas condições de todos os outros.

No deserto, sobretudo, somos consolados.

Deus habitou com seu povo no deserto. A festa dos tabernáculos era para lembrar que Deus havia feito seu povo habitar em tendas, lugares provisórios como esta vida, mas que ali também Ele habitava com eles, no tabernáculo que mandou construir e sobre o qual a sua Glória se manifestava.

Deus habitou no deserto. Ensinou com isso, que no lugar de passagem Ele também estaria com seu povo. Assim como nesta vida – lugar de passagem - Ele é Emanuel, Deus conosco.

A vida nesse mundo é lugar de provação. Temos algumas vitórias, mas a maior delas é que um dia estaremos livres de toda dor e sofrimento.

Enquanto sofremos, podemos sim chorar. Podemos sim assumir que apesar de sermos usados por Deus, as nossas vidas não são perfeitas. Somos vasos imperfeitos usados por um Espírito Perfeito. E aí reside a Glória Dele.

Queridos irmãos, as dificuldades com filhos, com trabalho, nos relacionamentos conjugais, e também aquelas que temos conosco mesmos são inerentes à nossa passagem por aqui. Digo passagem, porque é provisória a nossa estadia. Um dia nos despediremos daqueles que amamos, da vida que construímos, e seremos transportados para uma outra realidade, que ainda não conhecemos.

O tempo de recolhimento da alma pode produzir crescimento. O bambu chinês passa cinco anos crescendo para dentro da terra até que desponte para a superfície. Podemos aprender com ele a crescer também, internamente. A terra úmida e escura faz crescer raízes fortes, que garantem a consistência da vida manifesta.

O tempo do silêncio comumente rejeitado pode nos levar a reconhecer e assumir nosso lugar no mundo, na família, na igreja, nesta vida.

Portanto, seja-nos permitido desfrutar também do tempo em que a alegria não é aparente, mas em que estamos sendo trabalhados por Deus para fortalecer nossas raízes e, então, florescermos e darmos bons frutos.

Tudo tem o seu tempo determinado, e há tempo para todo o propósito debaixo do céu.
Há tempo de nascer, e tempo de morrer; tempo de plantar, e tempo de arrancar o que se plantou;
Tempo de matar, e tempo de curar; tempo de derrubar, e tempo de edificar;
Tempo de chorar, e tempo de rir; tempo de prantear, e tempo de dançar;
Tempo de espalhar pedras, e tempo de ajuntar pedras; tempo de abraçar, e tempo de afastar-se de abraçar;
Tempo de buscar, e tempo de perder; tempo de guardar, e tempo de lançar fora;
Tempo de rasgar, e tempo de coser; tempo de estar calado, e tempo de falar;
Tempo de amar, e tempo de odiar; tempo de guerra, e tempo de paz. (Ec 3: 1-8)

sábado, 26 de novembro de 2011

Águas Vivas





Da minha janela vejo um lago. Não é grande, nem profundo. Suas águas são calmas e escuras. Algumas garças pousam por lá de vez em quando. Há também uma família de patinhos que o visita de tempos em tempos.

No último mês, o lago que avisto mudou. Foi infestado por uma planta daninha, comumente chamada de Água Pés. Toda a superfície da água foi coberta por essa planta aquática, que se reproduz com muita rapidez e é capaz de entupir corpos de água. Sua massa diminui a capacidade de oxigenação da água matando os outros seres que vivem nela.

Quando olho de minha janela, vejo agora uma paisagem semelhante a um campo gramado. Penso mesmo que um motorista desavisado corre o risco de seguir com o carro sem perceber que o tal gramado na verdade é um lago coberto. A fauna que habita o lago está morrendo. A cada manhã, parece ter aumentado a infestação de água pés.

A visão das águas infestadas por uma praga me lembra águas mortas, e, por oposição, águas vivas. Vou ao Evangelho:

No Evangelho de João, encontro-me com o Senhor Jesus vivendo o tempo da Festa dos Tabernáculos. Suas palavras e atos eram contestados por muitos, aceitos por outros, e causavam dúvida, temor e indignação. Falava-se Dele. Buscava-se evidências se Ele seria o messias ou apenas um profeta. E, diz a Bíblia, que no último dia da festa Ele se levantou:

E no último dia, o grande dia da festa, Jesus pôs-se em pé, e clamou, dizendo: Se alguém tem sede, venha a mim, e beba.
Quem crê em mim, como diz a Escritura, rios de água viva correrão do seu ventre.
João 7:37-38


A Festa dos Tabernáculos foi instituída por Deus para que o povo de Israel se lembrasse de que Deus os havia feito habitar e tendas, em sua passagem pelo deserto. No deserto, também o Senhor habitou com seu povo, no Tabernáculo que abrigava a Arca da Aliança, e onde eram oferecidos os sacrifícios a Ele. Era costume que nessa festa, no último dia, o sacerdote derramasse água no altar do Templo, simbolizando o derramar de águas da chuva que Deus enviaria para a próxima colheita.

Conta o evangelho que neste último dia da festa o Senhor Jesus se apresenta, de pé, como fonte de águas vivas.

Chegamos ao final de 2011. A festa do Natal se aproxima. Simboliza um derramar de amor, paz, reconciliação em todos os cantos da terra onde já se ouviu falar de Jesus. Muitos de nós, no entanto, nem se lembram mesmo o que se comemora. Festas são memoriais, e memoriais servem para nos lembrar de coisas importantes, significativas.
No Natal, a figura do “bom velhinho” e suas renas substituiu com muitas luzes piscantes a memória da vinda do Senhor para o nosso meio.

Assim como na Festa dos Tabernáculos a intenção era fazer lembrar ao povo que Deus habitou no meio dele, também no Natal é preciso lembrar. É preciso encontrar o sentido da festa que fazemos. E o sentido está em que Deus, que outrora habitou em um tabernáculo no deserto, veio ao mundo em carne e osso, e habitou entre nós. O sentido está em anunciá-lo como EMANUEL – DEUS CONOSCO.

A partir de Cristo, Deus não é mais alguém distante, cujo acesso estava restrito aos sacerdotes. A vinda de Jesus Cristo inaugurou a passagem para um relacionamento íntimo e próximo com Deus:

No princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus.
E o Verbo se fez carne, e habitou entre nós, e vimos a sua glória, como a glória do unigênito do Pai, cheio de graça e de verdade. (João 1:1;14)

Deus veio até nós, e pela vida, morte e ressurreição de Jesus escreveu para nós sua mensagem de amor em letras garrafais:

EU VIM PARA QUE TENHAM VIDA E A TENHAM COM ABUNDÂNCIA. (Joao 10:10)

Dezembro chegou. A festa está prestes a começar. Talvez estejamos como o lago que vejo de minha janela: onde havia água boa, onde havia vida, a superfície está tomada por água pés. As águas se tornaram mal cheirosas e inúteis. Não há oxigênio e os peixes que outrora viviam ali estão morrendo. A água não dá seus frutos. Talvez estejamos como água morta.

Apesar de todo o barulho do “bom velhinho” e suas renas voadoras, a voz de Cristo se levanta, no meio da festa e anuncia: SE ALGUÉM TEM SEDE VENHA A MIM E BEBA!

Jesus Cristo é aquele que tem poder para renovar as águas, removendo toda a impureza que as cobrem. Ele é a fonte das águas. Ele é a razão da festa.

Aproveite a festa para beber Dele. Porque Ele diz:

Aquele que beber da água que eu lhe der nunca terá sede, porque a água que eu lhe der se fará nele uma fonte de água que salte para a vida eterna.
João 4:14


E tenha um Natal cheio do amor e do renovo de Cristo em seu coração!